30.1.12

Saindo da zona de conforto

   Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A procura da palavra no escuro. O pequeno sucesso me invade e me põe na rua. Eu queria chafurdar no lodo, minha necessidade de baixeza eu mal controlo, a necessidade da orgia e do pior gozo absoluto. O pecado me atrai, o que é proibido me fascina. Quero ser porco e galhinha e depois matá-los e beber-lhes o sangue.
(...)
   Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me e tiro-me de mim como quem tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer.
(...)
   Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim, substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é morte. Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição.
(...)
   Eu poderia deixá-la na rua e simplesmente não acabar a história. Mas não: irei até onde o ar termina, irei até onde a grande ventania se solta uivando, irei até onde o vácuo faz uma curva, irei aonde me fôlego me levar. Meu fôlego me leva a Deus? Estou tão puro que nada sei. Só uma coisa eu sei: não preciso ter piedade de Deus. Ou preciso?

***
 
Trechos de A Hora da Estrela de Clarice Lispector.

   Sendo bem sincera, eu não dava nada pelo livro quando o vi pela primeira vez. Uma amiga minha que sempre me indica coisas boas me emprestou o livro e insistiu que eu gostaria. Normalmente ela acerta, mas não sei por que certo ceticismo ficou me rondando por bastante tempo. Eu nunca havia lido Lispector, então pensei, ‘ah, por que não, né?’
   Fui à luta e confesso que não entendi nada. O estilo é extremamente diferente do que estava acostumada – romances épicos, narrações descritivas e literatura romântica – mas até que me cativou. Fui levando e lendo com calma, meio entediada, mas entretida o suficiente para não querer abandonar.
   Até que chegou um ponto em que me encantei. Voltei ao começo e reli algumas partes mais marcantes, até terminar com um sorriso.
   Cheguei à conclusão de que, apesar de não ser o melhor livro que eu já li, valeu a pena o tempo empregado e a paciência do começo, sair da minha zona de conforto e ver que há coisa boa por aí fora dos meus padrões.