6.9.10

Morte em vida


Morte em vida
I – Quinta à noite
Quinta-feira à noite, na mesa de um bar qualquer entre os muitos da cidade de São Paulo. Eu me via rodeada de pessoas, alguns amigos, outros que eu nunca tinha visto antes, conversando e rindo, como se não houvesse situação mais agradável no mundo. Nenhum de nós, eu imaginei, apareceria na universidade no dia seguinte para a aula, apesar de todos terem essa obrigação. Francamente, eu me sentia aliviada de ter uma desculpa para faltar à excitante e absolutamente insubstituível aula de história da arte. À minha frente o copo enchia-se e esvaziava-se com uma velocidade incrível, até que nada mais fazia sentido. O que deveria ser um pequeno cilindro de vidro agora parecia, na verdade, ser um exemplo de arte abstrata, um tanto surrealista, o que me fez lembrar imediatamente dos quadros de Dalí que havia estudado na universidade. Tudo ao meu redor parecia turvo e extremamente incoerente, e então me veio uma sonolência incontrolável. Tudo já estava escuro, quando a gargalhada aguda de uma das minhas amigas me despertou quase que completamente. Eu ri junto, já que aparentemente algo muito divertido havia acontecido, apesar de não fazer a mínima idéia do quê.
Depois do que pareceu muito tempo, o grupo se preparava para sair. Ficou determinado – por alguém que não eu mesma – que todos nos deslocaríamos à casa de alguém e, para isso, as mulheres iriam em um carro e os homens em outro, ambos dirigidos por pessoas certamente incapacitadas, dado o nível etílico dos organismos presentes. Isso, entretanto, não me pareceu um problema, apesar de achar que numa situação normal eu consideraria aquilo um absurdo, por alguma razão que no momento não recordava. Tudo organizado, nós partimos como o combinado.
Não tenho certeza se pelo excesso de álcool que circulava em minhas veias, ou pela irregularidade no movimento do automóvel, a paisagem externa ao carro me passava em borrões e outras formas que novamente me lembraram as aulas da faculdade, o que me pareceu extremamente fora de contexto e estúpido. Abri a janela e respirei o ar seco e frio que vinha de fora com certo desgosto, mas ao mesmo tempo agradecida, não sei bem por que. Tudo o que via – e que diga-se de passagem não era muito, nem tampouco coerente – parecia de uma beleza fascinante e por algum motivo gritei para a rua: “Eu amo estar viva!” e ri sozinha da minha idiotice e alegria provavelmente impulsionadas pela bebida. Em algum lugar dentro do veículo, que possuía aparentemente uma proporção colossal, risadas desmedidamente altas e em diferentes tons ressoavam e me enlouqueciam, de modo que senti o impulso de colocar minha cabeça entre os joelhos, esperando que aquilo me trouxesse silêncio, ou o mais próximo disso possível. Foi então que algo, que até hoje não entendo bem o quê, aconteceu, e a minha vida mudou de maneira extraordinária, para sempre.
No que provavelmente foi uma fração de segundo – não saberia dizer com certeza, pois nada passava no mesmo ritmo temporal – o espaço que o meu tronco ocupara antes de eu abaixar a cabeça até os joelhos, e que deveria estar vazio, se transformou num objeto sólido, que, tão logo surgiu, desapareceu, com um ruído insanamente alto de metais se chocando e vidro estilhaçando, e o chão em volta dos meus pés ficou coberto com o que pareceu ser cacos de vidro. Ignorando esses fatos, reparei que meu objetivo, ou seja, o silêncio, bizarramente havia sido atingido. Nenhum som, ao menos produzido por seres humanos, chegava aos meus ouvidos. Embora momentaneamente contente com esse fato, outro som, totalmente inesperado, me fez perceber que algo estava errado. O som era de algo líquido, um tanto viscoso, que pingava incessantemente bem perto de mim. Olhei para o lado ainda com o rosto entre as pernas e vi o que me despertou quase imediatamente do transe alcoólico em que estava há alguns minutos.
Num primeiro momento não acreditei, e muito menos quis crer, no que vi, e estive certa de que as muitas doses de tequila mais uma vez pregavam uma peça de muito mau gosto em minha visão. Fechei os olhos com força e os abri novamente, para encontrar exatamente a mesma coisa. Na penumbra da noite combinada à luz dos postes de iluminação não podia saber ao certo, mas mesmo assim, dentro de mim não havia a menor dúvida de que aquela quantidade enorme de líquido era sangue.
O sangue não parava de escorrer e pingar do assento ao meu lado em direção ao chão. Os pés das outras meninas à minha esquerda não reagiam ao nível de material viscoso que aos poucos ia aumentando. Num primeiro momento achei que sentiria enjôo, e no entanto o que senti foi um frio medonho, como se o meu coração houvesse congelado e o sangue que dele pulsava, devagar, espalhasse o gelo pelo meu corpo a cada segundo. Comecei a tremer e senti uma ânsia tremenda de sair dali correndo, mas nenhum músculo meu ousou se mover. O meu desespero era tamanho, que mesmo sabendo que não havia mais nada acima das minhas costas, eu não tinha a coragem de voltar à posição vertical ou olhar para outro lugar, imaginando o que iria encontrar. Tentado não pensar em nada, voltei meus olhos ao carpete entre meus pés e notei que minhas pernas, descobertas, deixavam escapar a mesma substância que assombrava a minha mente naquele momento, apenas em menor quantidade. “Deve ter sido o vidro que caiu” – pensei. De uma forma tão egoísta que até me envergonhei, fiquei agradecida que a poça de sangue ao lado não vinha de mim. Contudo, esse alívio passou extremamente rápido e foi substituído por um pavor imensurável.
Não sabia o que fazer, para onde olhar, se devia gritar, chorar, pedir ajuda ou fugir. Nada fazia sentido, apesar de eu saber que a minha condição ébria havia passado, estranhamente, com o susto. Perguntava-me o que exatamente havia acontecido, ou melhor, ainda estava acontecendo. Não conseguia raciocinar, pois não me lembrava de quase nada do que havia acontecido até ver o sangue dentro do carro. Ainda não conseguia levantar, e o medo do que encontraria era muito grande, enquanto que o silêncio, acompanhado da lembrança do som líquido, atormentava-me ao extremo da loucura. “Alguém me tire daqui!” – pensei gritar – “por favor, alguém acabe com esse pesadelo, alguém destrua esse silêncio horrível!”.
Um novo som chamou a minha atenção. Gritos, vindos de trás de mim, provavelmente há alguns metros. Vozes apressadas e com medo aumentavam à medida que seus donos se aproximavam de onde eu e o que deveriam ser minhas amigas estávamos. Foi então que um grito de perfurar os tímpanos e arrepiar a espinha fez o meu corpo reagir automaticamente, voltando a ficar ereto, e eu olhei para o que havia evitado até aquele instante. Eu esperava o pior, entretanto nada vi. Absolutamente nada. Frustrada, confusa, e ao mesmo tempo aliviada, pisquei. No segundo seguinte eu não estava mais lá.
***

Um comentário:

  1. desculpem a letra pequena, mas deu meio errado a configuração do texto...

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