Morte em vida
II – Na escuridão, o silêncio.
Tudo o que havia era uma escuridão esmagadora. A sensação era de que o próprio ar tentava me engolfar, asqueroso e denso, e eu, claustrofobicamente, submergia cada vez mais na profundidade do negrume ao meu redor.
Foi então que percebi que, de algum modo, não estava mais naquele veículo que por alguns minutos fora o invólucro de um horrível pesadelo, monstruosamente real. Tampouco estava sentada, ou em qualquer posição. Na verdade, não sabia dizer o que havia acontecido ao meu corpo, ou o que havia me tornado. Tentei mexer os meus dedos e braços, mas nada senti. Na verdade, não parecia possuir mais nenhum de meus cinco sentidos. Minha mente sozinha existia no escuro, e era tudo o que restava de mim. Percebi que tudo ao meu redor parecia-me nada. Ora, mas que ótimo momento para filosofar – pensei, irritada.
Tentei me lembrar de como havia chegado ali, isto é, como havia escapado aquela visão horrível que poucos segundos antes havia involuntariamente contemplado. Visão? Naquele instante reparei que, na verdade, aquilo que eu mais temia ver sequer havia se concretizado ante meus olhos, e eu jamais descobrira o que exatamente havia produzido aquela quantidade enorme de sangue no chão do automóvel, tendo sido transportada a esse novo e misterioso lugar antes disso. Numa mistura de confusão e alívio, procurei, em minha memória, quaisquer traços que fizessem tudo aquilo fazer sentido. Contudo, por mais eficiente que fosse o meu raciocínio lógico, não parecia haver meios de entender o que fosse.
Minha mente estava quase atingindo o limite do desespero e entrando no campo da loucura quando algo pareceu soar em meu ouvido, como uma risada. Surpresa por recuperar alguns sentidos, e principalmente por voltar a possuir um corpo sólido – que ao surgir dissolveu o peso e o desconforto que me envolviam por completo, emergi do caos que haviam se tornado meus pensamentos, ainda na escuridão absoluta, para prestar melhor atenção ao novo som.
Silêncio. Com a frustração causada por este, voltei a mergulhar nas perguntas que naquele segundo assolavam minha existência, que eu chamaria até de abstrata. Onde estou? Como cheguei aqui e por que não estou mais dentro do carro? Estive dentro do carro, em primeiro lugar? O que aconteceu? Foi um pesadelo? Ou o sonho está acontecendo agora? De onde veio todo aquele sangue? O que exatamente me tornei? De onde veio esse breu?
Depois de alimentar fervorosamente as dúvidas que me rodeavam por um longo tempo – ou não, cheguei a duas opções que me pareceram muito plausíveis. Havia enlouquecido e estava, no momento presente, ou o que fosse, dentro de uma intensa alucinação, ou então estava morta, em algum tipo de espaço de transição.
‘Você não está morta,’ murmurou uma voz muito próxima ao meu ouvido.
Assustada, virei meu rosto, na tentativa de ver quem falara, para logo em seguida me lembrar da escuridão em que me encontrava. Compreendi que o dono daquela voz era quem havia produzido o riso que me despertara da loucura anteriormente, e quem silenciara de modo extremamente frustrante. Agora, novamente, abandonei minhas dúvidas de modo a ceder lugar à nova curiosidade e fiquei surpresa ao descobrir que ainda possuía voz.
‘Quem está aí?’ foi tudo o que consegui verbalizar, um tanto desapontada.
Silêncio. A minha frustração anterior transformou-se em aborrecimento, de forma que concluí que, muito provavelmente, havia sido alguma ‘voz da consciência’ que falara a mim.
‘Não sou nenhuma “voz da consciência”, ’ falou a existência misteriosa novamente. Nesse instante notei que o timbre daquela voz remetia a uma fonte masculina, mas ao mesmo tempo não podia ter certeza, dada a própria incoerência da circunstância. Não me importando muito com o último detalhe, lembrei que “ele” dissera que não estava morta. Bom, a morte em si é algo muito relativo – refleti, sentindo-me uma pseudo-filósofa e irritada por não obter respostas claras. Entendi que, se não havia morrido, como “ele” dissera, a opção restante era a menos lisonjeira, porém talvez mais intrigante: eu havia enlouquecido.
‘Você não está louca,’ ressoou a voz novamente muito perto de meu ouvido, a ponto de até mesmo sentir o ar se mover na minha nuca, apesar de saber que não havia ninguém atrás de mim, arrepiando-me e me deixando ainda mais curiosa.
‘Quem está aí?’ perguntei novamente.
Silêncio. O que antes era aborrecimento tornou-se pura raiva. Ser ignorada era algo que detestava absurdamente. Argh! Por que é que esse ser bizarro não responde à minha pergunta? – perguntei a mim mesma silenciosamente. A resposta, no entanto, veio em alto e bom som.
‘Não respondo, pois não há resposta exata à sua pergunta.’
‘Eu não preciso de uma resposta exata, qualquer uma serve. Eu apenas não quero ficar ilhada nas minhas dúvidas,’ repliquei.
Silêncio. A minha ira presente era tão intensa, que antes mesmo de pensar, gritei a plenos pulmões, para o nada: ‘MAS QUE DROGA, RESPONDE!’
‘Você não fez uma pergunta,’ foi simplesmente o que disse.
Tentei me acalmar, pensando que aquilo talvez fosse um teste, alguma provação de paciência pela qual eu deveria passar antes de obter as minhas respostas. Não, não, “ele” só quer me irritar, ver a que ponto eu chego.
‘Não tenho tal intenção,’ afirmou.
‘Quem é você, então?’ perguntei, numa última tentativa.
‘Não sei se deve falar em “quem”.’
Não sabia se ficava feliz em finalmente ter sido respondida, ou ainda mais frustrada com tal resposta. O que “ele” havia dito soou a mim provocativamente vago e incoerente. Não obstante, usei o que me restava de boa vontade e mergulhei, mais uma vez, em reflexões. Ao não se poder falar em “quem”, “ele” quis dizer que não se tratava de uma pessoa – foi o que concluí. Assim, imaginei, a palavra ideal para fazer a pergunta seria... “O quê”?
‘Vejo que é inteligente,’ o ouvi comentar, ainda muito próximo ao meu ouvido, num sussurro quase inaudível, e logo em seguida abafar um riso – se é se poderia chamar um som extracorpóreo assim – ‘mas, é claro, eu já sabia disso.’
‘Senti ironia nesse comentário,’ reclamei.
‘Oh, de modo algum, é apenas a sua imaginação,’ disse ‘que é muito fértil, eu devo dizer.’
Um tanto aborrecida com o fato de este sujeito, ou o quer que fosse, ler minha mente e invadir o meu “espaço” pessoal como se fosse nada, respirei fundo e reformulei a minha pergunta: ‘O que, afinal, é você?’
“Ele” riu baixo e depois do que poderiam ser minutos, em que aparentemente estava tentando formular sua resposta, voltou a falar, dessa vez não mais apenas perto do meu ouvido. ‘Eu sou o inevitável. Eu asseguro o futuro, no presente e no passado,’ a mística voz soou de todos os lugares, onipresente, homogênea e poderosa, como se minha indagação tivesse despertado sua força completamente.
‘Eu carrego o futuro de todos, o destino de tudo o que nasce, a razão maior de sofrimento e alivio. Eu provoco a vaidade dos homens, o ódio e a tristeza, a violência e o instinto. Eu mato a sede das guerras, a fome das feras que habitam o coração humano. Minhas mãos interrompem caminhos e reformulam o passo do mundo, ao mesmo tempo em que nada modificam no fluxo da mera existência.’
‘E o que quer dizer com isso?’ questionei, intrigada com o mistério da apresentação.
‘Eu trago a morte.’
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