10.10.12

Olhos mergulhados em piche.


     Há certo tempo vinha pensando no sobrenatural. Desde sempre o assunto tomou presença no fundo de sua mente, acanhado num canto, como uma criança num primeiro dia de escola, sem amigos, entretanto nunca lhe pareceu relevante trazer à tona essa questão, convidá-la a entrar na roda. O que é, e se de fato existe o sobrenatural, apenas recentemente tomou proeminência em seus questionamentos, após uma vagarosa evolução, passando pelo afastamento, ceticismo completo, desconfiança e finalmente chegando à dúvida aparentemente perpétua.
     Há um ano havia começado a assistir um seriado americano que trata do sobrenatural e narra a história de dois homens que caçam, destroem e até mesmo se associam a entidades fantásticas, desde vampiros a anjos e demônios (que fique aqui estabelecido que é muito dada a se vincular a seriados e tomá-los por mais reais e essenciais a seu dia-a-dia do que seria provavelmente considerado saudável – fato que em verdade não a incomoda tanto).
     Não tendo nenhuma outra referência ilustrativa que lhe parecesse plausível – jamais gostou de religião e muito menos da Igreja Cristã, se afastando de seus dogmas e imagens ao máximo sem ofender (muito) sua família – a expressão imagética de demônios que ficou marcada em seu imaginário é aquela apresentada pelo programa: a da posse invisível de seres humanos por tais entidades, que se revelariam ao piscar os olhos e estar o globo ocular inteiramente preto, como se mergulhado em piche.
     Em seu agnosticismo empurrou a ideia ao fundo de seu cérebro, seguindo a vida como de costume. No entanto, sua imaginação nunca a decepciona em sua fertilidade, principalmente durante sonhos, uns mais marcantes que outros.

     Num desses momentos de criatividade noturna sonhou que estava em Paris – por quê, exatamente, não tinha certeza; nunca teve interesse em viajar à França e o idioma pouco lhe interessava – em uma confeitaria, admirando os doces expostos na vitrine, finalmente decidindo-se por uma torta de nozes. Direcionou-se ao balcão e num francês que não passava de ‘bonjour’ e ‘omelet au fromage’ tentou comunicar o que desejava. A atendente, ao que parecia, era de origem asiática e não compreendia a vontade da freguesa que tentou, assim, utilizar o inglês, em que era proficiente, mas que a outra desconhecia.
      Em sua frustração, notou que uma outra moça havia se postado a seu lado e esperava o fim da interação problemática de turista e atendente para ter sua vez frente o balcão. Pelo canto dos olhos observou que a recém-chegada era alta e morena, o cabelo arrumado um dezenas de tranças presas num coque no alto da cabeça e a encarava como se intrigada.
     Enfim desistindo de comprar o doce – nem mesmo por meio de sinais havia obtido sucesso – e de certa maneira incomodada com o olhar intenso da outra, voltou a cabeça e o olhar à moça como que para indagar-lhe o motivo do fitar. Ao deparar-se com o rosto da moça (olhos amendoados, sobrancelhas finas e arqueadas, lábios grossos), esta lhe sorriu e cerrou os olhos, abrindo-os em seguida para revelar olhos totalmente enegrecidos, de demônio.

     Acordou com o coração batendo acelerado.

     O episódio custou a sair-lhe da cabeça; a qualquer momento de distração logo se lembrava do rosto da estranha que a fez despertar em pânico e que a cada vez que recordava sentia um aumento em sua frequência cardíaca.

      Meses passaram e enfim esqueceu-se.

     Andava pela rua onde ficava seu trabalho, pensando no que teria de fazer assim que chegasse em casa. Eram nove horas da noite, verão. A noite estava abafada e o suor escorria-lhe pelas costas por debaixo da camisa. Chegando à esquina parou na beira da calçada, esperando o momento de atravessar a rua. Pelo canto dos olhos notou a presença de outra moça, esperando também a abertura do semáforo de pedestres. Observou que a outra era alta e morena, o cabelo arrumado em dezenas de tranças presas num coque no alto da cabeça.
     Sentiu curiosidade, por um motivo que não lembrava muito bem, mas que a pressionava no fundo da mente, como uma criança que cutuca a mãe até que esta lhe dê atenção, e voltou a cabeça e o olhar à estranha que parecia ter tido a mesma ideia. As duas se olharam por alguns segundos, enquanto apreendiam a aparência uma da outra. Viu lábios grossos, sobrancelhas finas e arqueadas e olhos amendoados, que ao piscar revelaram-se mergulhados em piche.
     Teve um momento de pânico, lembrando-se do sonho de tanto tempo antes.

     A estranha sorriu e tudo se apagou.

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