5.10.09

O mar e o sorriso

Era tarde. A madrugada ia alta. Estava tudo escuro, a não ser pelos raios fracos da lâmpada de emergência no convés. Fechou os olhos e tentou escutar algo, qualquer som, algum grito, alguém chamando ao longe, pedindo deseperado que não fizesse o que estava prestes a fazer, mas que repensasse e voltasse para dentro da cabine.

Silêncio. Não sabia se queria ou não que a impedissem, não tinha mais noção alguma do que queria para a vida, ou se queria a própria vida. Apenas não suportava mais aquilo, não suportava mais a mãe, o dinheiro e todos aqueles tolos bajulando-a. Desejava que tudo isso acabasse, desabasse. Queria mais do que tudo ser outra pessoa, ter nascido em outro berço, de outro ventre qualquer.

Silêncio. Vestia um de seus melhores vestidos, feito a mão pela melhor modista de Londres. De fato, era o se favorito. A sola de seu sapato de salto deslisava na borda da proa. Logo seria a hora. Quando soltasse as mãos e se deixasse levar pelo vento nada mais importaria. Seria o fim de tudo e de todos. O fim da hipocrisia, do pesadelo do qual sempre quis acordar.

No entanto, havia algo que a prendia ao navio, algo que atava suas mãos às barras e fixava seus pés ao piso liso. Algo que a impedia de se entregar à brisa eterna do mar, de afundar nas águas escuras do oceano e desaparecer no nada.

Alguma coisa dentro dela palpitava, sussurrando palavras que não compreendia. Sentia que algo novo estaria prestes a acontecer, algo que mudaria sua vida para sempre. Algo nasceria dentro e fora dela, e portanto deveria viver para presenciá-lo.

Abaixo de si o mar ondulava com o avanço da nau. O silêncio profundo era regido pelo sedoso remexer das águas. Uma quietude perfeita, mixada ao murmúrio líquido do tapete azul que se estendia até o infinito. Absolutamente calado embora cantando, entretendo-a, hipnotizando-a, amável e aconchegante. Aos poucos foi liberando os dedos que a prendiam à vida, se inclinando e já imaginado o mar gélido engolindo-a, tão reconfortante, completamente bem-vindo...

Foi quando o som de passos a despertou do transe e olhou para trás. Um homem jovem e alto estava parado a poucou metros, olhando em sua direção. Pelo modo como se vestia, era claro que viajava na terceira classe. O homem acendeu um cigarro e estendeu o maço, como quem oferece. Ela acenou negativamente e voltou sua atenção para o mar. Contudo, não conseguiu se concentrar, pensando no sujeito parado, assistindo. O que é que ele queria? Será que não havia reparado na posição em que se encontrava, fumando, como se ninguém estivesse lá? Olhou novamente para trás. O homem agora a fitava, como se a desafiasse a tentar se soltar.

Silêncio. Percebeu que ele sorria e se irritou ainda mais com sua insolência. Havia desviado seu foco e agora não conseguia mais olhar para frente, mas apenas em direção ao homem que sorria. Reparou então que não podia mais desprender os olhos daquele sorriso. Seu poder de hipnose era infinitamente superior ao do oceano, do vento, da morte.

Muito tempo passou sem que nada fosse dito. O jovem então apagou o cigarro e caminhou em sua direção. estendeu o braço e num sussurro quase inaudível disse:

"Está uma noite linda."

Rose segurou na mão do desconhecido e pulou a grade de volta ao convés. Os dois deram-se os braços e entraram no hall do navio. Era isso, afinal, que mudaria sua vida para sempre, que nascia dentro e fora dela, e portanto viveria para presenciá-lo.

3 comentários:

  1. Nada como uma cantada perfeita ("E aí gatiénha, qual a porta de embarque do seu aviããão?").

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  2. he..
    ("se você fosse um sanduíche seria um x-princesa!")

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  3. Ótimo texto. Adorei a abordagem!
    Beijos, Flávia
    http://fcgiraldes.blogspot.com/

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